Canção da Mirada Secreta Foram-se os amores que tiveou me tiveram. Partiramnum cortejo iluminado. A solidão me ensinaa não acreditar na morte,nem demais na vida: cultivoo jardim dos dias felizesonde estamos eu, os sonhos idos,os velhos amores e os seus recados,e os olhos deles que ainda brilhamcomo pedrinhas de cor entre…
Segunda Poética
-
Ônus A esperança me chama,e eu salto a bordocomo se fosse a primeira viagem.Se não conheço os mapas,escolho o imprevisto:Qualquer sinal é um bom presságio. Seja como for, eu vou,pois quase sempre acredito;ando de olhos fechadosfeito criança brincando de cega.Mais de uma vez saio ferida,Ou quase afogadaMas não desisto. A…
-
Negro-EstrelaEm memória de Osvaldo, doce companheiro meu, pelo tempo que a vida nos permitiu. Quero te viver,vivendo o tempo exatode nossa vida. Quero te viver na plenitudedo momento gastovivido em toda sua essênciasem sobra ou falta. Quero te viverme vivendo plenado teu, do nossovazio buraco. Quero te viver, Negro-Estrela,compondo em…
-
Do fogo que em mim arde Sim, eu trago o fogo,o outro,não aquele que te apraz.Ele queima sim,é chama vorazque derrete o bivo de teu pincelincendiando até ás cinzasO desejo-desenho que fazes de mim. Sim, eu trago o fogo,o outro,aquele que me faz,e que molda a dura penade minha escrita.é…
-
Recordar é preciso O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentosA memória bravia lança o leme:Recordar é preciso. O movimento vaivém nas águas-lembrançasdos meus marejados olhos transborda-me a vida,salgando-me o rosto e o gosto.Sou eternamente náufraga,mas os fundos oceanos não me amedrontame nem me imobilizam. Uma paixão profunda é a…
-
Da calma e do silêncio Quando eu mordera palavra,por favor,não me apressem,quero mascar,rasgar entre os dentes,a pele, os ossos, o tutanodo verbo,para assim versejaro âmago das coisas. Quando meu olharse perder no nada,por favor,não me despertem,quero reter,no adentro da íris,a menor sombra,do ínfimo movimento. Quando meus pésabrandarem na marcha,por favor,não…
-
Desencontrários Mandei a palavra rimar,ela não me obedeceu.Falou em mar, em céu, em rosa,em grego, em silêncio, em prosa.Parecia fora de si,a sílaba silenciosa. Mandei a frase sonhar,e ela se foi num labirinto.Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.Dar ordens a um exército,para conquistar um império extinto. (Paulo Leminski) PAULO LEMINSKI…
-
não sou o silêncioque quer dizer palavrasou bater palmaspras performances do acaso sou um rio de palavraspeço um minuto de silênciospausas valsas calmas penadase um pouco de esquecimento apenas um e eu posso deixar o espaçoe estrelar este teatroque se chama tempo (Extraído do livro: “Caprichos & Relaxos) PAULO LEMINSKI…
-
Amor, então,também, acaba?Não, que eu saiba.O que eu seié que se transformanuma matéria-primaque a vida se encarregade transformar em raiva.Ou em rima. (Extraído do Livro “Caprichos & Relaxos”) PAULO LEMINSKI nasceu em Curitiba. Foi poeta, romancista, tradutor, compositor, biógrafo e ensaísta – além de faixa preta de judô. É autor…
-
nascemos em poemas diversosdestino quis que a gente se achassena mesma estrofe e na mesma classeno mesmo verso e na mesma frase rima à primeira vista nos vimostrocamos nossos sinônimosolhares não mais anônimos nesta altura da leituranas mesmas pistasmistas a minha a tua a nossa linha (Extraído do livro ”…