Resenha Literária: Ventura – A menina que fotografava estranhos
“Nesse momento, Mag finalmente sentiu um pouco de medo, traduzido num calafrio e um nervoso no estômago. Uma angústia. Bento Custódio, que estava morto, sepultado num cemitério que ela nem sabia onde ficava, estava mesmo naquela foto. E sua imagem, que ninguém conseguia ver com nitidez, exceto ela, era fantasmagórica e soturna como as maldições de filmes horríveis da TV.” (pág. 16)
Ventura: a menina que fotografava estranhos é um mergulho visceral no imaginário brasileiro, conduzido com a habilidade literária que já é marca registrada de Jefferson Sarmento. O autor constrói, com destreza, uma narrativa que dialoga com o terror folclórico, a fantasia urbana, rural e o suspense sobrenatural — sempre com consciência profunda da riqueza cultural que sustenta cada elemento da trama.
Logo de início, somos apresentados a Mag Ventura, que vive entre dois mundos: o visível e o que se esconde nas frestas da realidade. Seu dom peculiar — fotografar aquilo que ninguém mais vê — não apenas revela criaturas perturbadoras, mas também a coloca no centro de um conflito ancestral que envolve sua família, a Mata e forças que ultrapassam qualquer lógica humana.
Quando seu mundo é invadido por caçadores saídos das lendas mais antigas, Mag descobre que sua vida inteira foi construída sobre segredos destinados a protegê-la de uma herança poderosa. A busca por verdade a leva até Ouro Velho e ao reencontro com o avô que julgava morto, guardião de pactos antigos que conectam seu sangue à magia selvagem da Mata.
Jefferson Sarmento surpreende ao reinventar figuras clássicas do folclore — curupiras, sacis, a Cuca — em versões mais sombrias, brutais e inquietantes, distantes das representações lúdicas que marcaram nossa infância. Neste livro, essas criaturas são perigosas e imprevisíveis.
Um dos aspectos mais fortes da escrita de Jefferson Sarmento é seu estilo marcante, repleto de repetições intencionais que reforçam emoções, tensões e elementos-chave da narrativa. São repetições que não cansam: acentuam, marcam, imprimem força no leitor. E isso se reflete tanto na jornada de Mag quanto nas figuras que orbitam sua história.
As personagens, todas elas, são memoráveis — fortes, corajosas e, acima de tudo, vivas na narrativa. Mas nenhuma me conquistou tanto quanto Ndê Baru. Enigmática, sensível e dotada de poderes que transcendem o explicável, ela é essencial para guiar Mag na compreensão de sua identidade e de sua ligação com o mundo sobrenatural. Sua presença é magnética, bondosa e carrega uma aura de ancestralidade e mistério que engrandece a história.
Outro elemento que merece destaque é a estrutura do livro. A narrativa segue uma progressão extremamente bem definida, com momentos de virada claros, revelações cadenciadas e paralelos que convergem no clímax de forma impecável.
Desde a abertura, que mostra o primeiro contato de Mag com seu dom, até o clímax no confronto com a Velha/Cuca, tudo é arquitetado com precisão. O uso de tramas paralelas, a recorrência de símbolos (como a queda) e a organização do enredo em atos bem delineados tornam a leitura envolvente e cinematográfica. É uma história que cresce, expande e se entrelaça como a própria Mata viva que habita suas páginas.
A experiência de leitura é intensa: unindo folclore, suspense, terror e ação, Jefferson Sarmento entrega uma obra que foge do previsível e cria um universo próprio, original e absolutamente cativante.
Ventura: a menina que fotografava estranhos é, acima de tudo, uma narrativa sobre identidade, legado e coragem. Uma história que honra nossas raízes culturais enquanto nos conduz por uma aventura sombria, emocionante e profundamente humana.
JEFFERSON SARMENTO é autor de A Casa das 100 Janelas e Terra de Almas Perdidas, romances em que o mistério, o insólito e o encantamento permeiam o cotidiano.
À frente da Tramatura, edita projetos como as séries Gritos de Horror, Fantástica Aventura e Cientifica Ficção, que resgatam e celebram o melhor da literatura de gênero — clássica e contemporânea.
Em A menina que fotografava estranhos, Jefferson Sarmento conduz o leitor por um Brasil onde o folclore pulsa sob a pele da realidade, e histórias esquecidas ainda aguardam e encantam quem ousa escutá-las.

