Resenha: O Peso da Inexistência – Amélia Greier

Existem livros que contam histórias e outros que nos atravessam por inteiro.
“O Peso da Inexistência”, de Amélia Greier, é uma dessas leituras que não se limitam às páginas, ela ecoa, incomoda e permanece.
Logo nas primeiras linhas, somos apresentados a algo aparentemente simples: um formulário. Mas o que deveria ser apenas um preenchimento burocrático se transforma em um espelho brutal. Diante da pergunta básica, “quem é você? ”, a protagonista simplesmente não sabe responder.
E é nesse instante que o romance revela sua potência. Não se trata de uma falta de palavras, mas de uma ausência de si. A protagonista não tem nome e essa não é uma escolha casual. Ela é mãe, esposa, dona de casa, mas não é reconhecida como um indivíduo.
A narrativa escancara aquilo que muitas vezes passa despercebido: o peso do trabalho invisível, do cuidado não reconhecido e valorizado, da vida vivida e construída em função do outro. Em um mundo onde títulos parecem definir valor, a protagonista percebe que não cabe em nenhum deles.
A escrita de Amélia Greier é delicada e expõe com precisão dolorosa aquilo que tantas vezes passa despercebido: o peso do trabalho invisível, do cuidado não valorizado e de uma vida construída em função do outro. O livro representa o peso que não se vê e se constrói a partir de pequenas cenas como a rotina, os filhos, o cansaço e as ausências. E, gradualmente, tudo vai se acumulando até o leitor perceber que não é a protagonista que está vazia, mas sim o mundo ao redor que não a enxerga.
O Peso da Inexistência não oferece respostas fáceis, ele provoca e questiona o valor que damos ao que não é mensurável. Confronta a lógica de um mundo e de uma sociedade que reconhece apenas o que pode ser nomeado, registrado e validado.
E, assim, os leitores ficam com uma inquietação inevitável: quantas pessoas existem sem, de fato, serem vistas? Enfim, essa não é uma leitura leve, mas necessária. Porque, em tempos de excesso de vozes, Amélia Greier nos convida a escutar o silêncio.
E talvez o maior impacto do livro esteja justamente nisso, em nos fazer perceber que existir nunca deveria ser um esforço.
Amélia Greier é o pseudônimo literário de Carolina Frutuozo, escritora paulistana radicada em São Carlos-SP. Como autora, recebeu a medalha Adélia Prado da Academia Feminina Mineira de Letras, em 2019, e participou da publicação coletiva do livro “(Con)ciência. Historias de la ciencia brasileña”, promovido pela Universidade de Salamanca em parceria com a FIOCRUZ, em 2021. Em 2024, publicou o seu primeiro livro infantil, “Bem-te-vi, uma lição que bem ouvi”, pela Editora Ases da Literatura.
“O Peso da Inexistência” é seu romance de estreia, que nasceu a partir da conquista do segundo concurso de contos do projeto Podletras, um podcast voltado para o universo literário e artístico, formado pelos escritores César Costa e Will Santos. A obra é um testemunho tocante de quem vive à margem das próprias escolhas e busca um lugar de pertencimento em meio à pressão de ser definida por títulos e papéis sociais.
Autora do livro infantil Bem-te-vi: uma lição que bem ouvi (2024). “O Peso da Inexistência” é seu romance de estreia — e já revela uma escrita madura, sensível e profundamente comprometida com questões sociais contemporâneas.